quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Nublado



Eu não sei o que tá acontecendo. Só sei que uma tempestade se aproxima. Eu posso vê-la pelos cantos dos meus olhos. Uma tempestade violenta e prolongada. E, se ela não vem agora, é certo que tardará ainda um pouco mais, mas virá.
A causa dela é óbvia, tanto pra você quanto pra mim. E eu, às vezes, me pego sem entender o motivo pelo qual é forte essa minha vontade de atravessá-la junto com você... Te ajudando a erguer as velas, quando necessário, e a resgatar os marujos que forem ao mar. Durante alguns segundos, de tempos em tempos, eu realmente não sei. Eu quero enfrentá-la junto com você, apoiá-la em não se acovardar... Pois sei que você precisará de alguém que te acorde quando adormecer de cansaço ou de falta de motivação, te chamando para a nossa batalha contra o vento, e sei que os tripulantes (os de corpo presente, que não serão almas, apenas) serão poucos. Mas certas memórias (só para variar, a me perseguirem) me deixam em êxtase e, em meio a tantas brisas a virem de direções diferentes e acertarem-me o rosto, confusão.
A minha tempestade já passou, faz tempo, é verdade. Tenho convivido apenas com essas pequenas monções, vez ou outra notavelmente grandes, que me tiram o sono. Mas a verdade é que, apesar de eu ter passado tanto tempo procurando ao menos adquirir experiência ao conduzir um navio praticamente sozinha, ainda não pude aprender a viver só. Não foram (e nem são) poucas as vezes em que eu desejo-o ardentemente. Não deixar de conviver com as pessoas, é claro; mas entender que tudo parte de mim, de certa forma, por inteiro, e aprender a depositar confiança e esperança nas pessoas mantendo um olho de vidro sempre aberto. E me deixar levar pela correnteza sem fim dos sete mares... Porque só assim, eu saberia, nada poderia me atingir. Me pergunto se seria capaz de consegui-lo, um dia.
Certa vez alguém me perguntou se eu tenho medo de dar de cara com outras tempestades, ou de encontrar monstros do mar lendários ou desconhecidos. Na ocasião, respondi que não, que já tinha me batido tantas vezes com ocasiões semelhantes... Não haveria o que, nem porquê temer. Pois bem, agora está mais do que claro o meu medo. E, ainda além disso, está clara a minha falta de hesitação em revelá-lo. Uma das não tantas coisas que eu felizmente acabei aprendendo.
No fim, trata-se mesmo apenas de se desacostumar de antigos vícios e reaprender a usar as teclas de um novo teclado, do modo que é a elas designado.
Mas eu estava falando de você, não era? Pois bem. É; apesar de tudo, acho que nada abala minha rota. Afinal, eu no fundo sei que não foi culpa sua.

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