Eu sou poeira das ruas. Sou ferro. Sou fogo. Sou a fusão dos dois. Sou margarina e, quando conveniente (apenas quando conveniente) sou acéfalo desmemoriado. Sou seus olhos, sou a cor deles. Sou a cor do meu pincel e também a das piadas diárias, sem graça e sem sentido. Sou sonho desprovido de pensamento. Sou a falta de raciocínio lógico. Sou sinal fechado. Sou trânsito engarrafado; sou tráfico. Sou droga ilícita, aos montes. Sou a falta de juízo que supera o juízo final, tão, tão ansiosamente esperado. Sou a falta daquela vontade tão embriagada de outrora. Sou cheiro, sou asas, sou lábio inferior. Sou luz; sou nada. Vida e morte, morte e vida. Sou apelação. Sou cruz. Sou a mão que guarda a pedra que apedreja a cruz. Sou garra, sou gancho, sou faca... Sou nada. Sou bem-estar bem preguiçoso. Sou tudo de volatilidade, tudo. Sou filme de final de semana distante. Sou o grito alto da gaivota lá do alto, confundido com riso por uma criança até então poupada. Até então inocente. Sou formigamento, sou fadiga muscular. Sou dor e sou amor. Cor; cor de melancia partida no meio, contraste de kiwi, sabor de manga pêca. Sou segunda-feira. Sou incerteza, sou voracidade. Sou a cor e a textura que a lua cheia assume, quando está mais alta. Sou um baobá. Sou o peito teu. Sou ilusão de posse do peito teu. Sou coisa que não se determina, coisa pirateada, quem sabe. Sou passagem que não se determina. Eu vim, estou e permanecerei ainda de passagem. Sou força que se força. Sou grito surdo de rebelião, de revolta. Sou reconhecimento (ou a falta dele). Sou o não. Sou abraço demorado, reconfortante. Sou abraço que não é abraço, sou abraço de má vontade. Sou reprodução por brotamento. Sou relapso. Sou déjà-vu. Sou o subconsciente. Sou o seu perdão. Sou viagem. Sou o sair daqui. Sou a paz que tem sempre de começar a guerra. Sou comum e sou loucura dissimulada. Sou ultraje. Sou perigo. No mais, sou porto-seguro. Sou o fechar de olhos quieto e sem expressão na noite escura. Sou toda quietude. Sou tudo o que não me pertence. Sou nada, sou nada. Sou o que não sou eu mesma em minha intenção longínqua de ser.
Eu sou uma folha seca de formato irrelevante, partida em seu meio exato, no chão cheio de tôcos de cigarro de uma barraca qualquer.