Algumas coisas não fazem sentido. Ou deixam, ou então nunca fizeram sentido, mesmo. O fato é que, no momento, a impressão mais presente é de que a vida se faz mesmo nos pequenos fragmentos, cacos infundados do que deveria supostamente se mostrar, no fim, como o tudo e uma coisa só. Mas eu ando vivendo demais aos pedaços; perco uns, encontro outros, conjuro os que faltam. Esqueço justamente os que se perdem em mim, desamparo e marginalizo o que já nem sei. E, apesar de saber que estão ali, com a cabeça entre os joelhos e encostados em alguma parede descascada das minhas entranhas, não os resgato. Também não os nego. Já não me cabe nada a fazer, além de ouvir as acusações que a mim são dirigidas, juntamente com o meu histórico criminal, balançar a cabeça e não dizer palavra. Como poderia buscar uma defesa justa, se nem eu mesma possuo plena noção do que fiz e do que deixei de fazer? Se nem eu sei do que poderia ter sido capaz de fazer, ainda hoje? A qual extremo chegaria? Tudo se passou em meio a uma núvem densa demais de fora de si.
Assim, eu me mantenho mentalmente impune, saudável de forma segura, na medida do possível.
Ana, eu nunca teria sido capaz de imaginar a gente aqui.
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