sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Caixa vazia.

E foi pensando em tudo que os meus olhos desmontaram. Eu nunca sei que parte foi você, que parte fui eu, que parte foi a deficiência da parte que à gente não cabia. Eu só sei que o mais fácil acabou se tornando pensar no rosto dela, agora, e não nele, verdadeiramente, mas no que representa. Ana, é que parece que tudo que você faz, e até quando não faz nada, só torna tudo tão continuamente, ameaçadoramente mais concreto do que logicamente devesse. O seu não fazer é mais ação concreta do que o fazer de todo o mundo, ainda que eu sempre tenha sabido desse seu costumeiro costume de ser singular.

É só que a minha coluna já dói, e os meus pés já doem, e o meu pescoço já dói de tentos dias passados em cima daquela mesma pedra, naquela mesma posição, só esperando (ainda que sem saber ao certo que era isso que eu esperava) você chegar mergulhando e, com vontade, se juntar a mim em cima da pedra, apoiar sua cauda nos meus joelhos e me fazer saber que posso contar mais uma piada idiota sobre o mundo e sobre a quantidade de minutos que você se atrasou, naquele dia. Que você sempre se atrasa. Como sempre, você iria dever saber que eu não me importava, verdadeiramente; que você podia me deixar eternidades esperando, que eu só dizia aquilo pra tentar tirar de você um sorriso.

Ana, eu sem querer me cansei de sentar e esperar naquela pedra, os desenhos, os cd's e o caderno pesando cada dia um pouco mais dentro daquela mochila desbotada que eu costumava carregar todas as vezes, no meu ombro esquerdo. Eu sei que o que prometi a você foi fazer o possível para morar contigo lá, e eu de fato o fiz. A pedra ainda continua lá, na praia de sempre, mas ela já deixou de esperar pela gente há tempos. Eu é quem não dei ouvidos à pedra, nem às gaivotas, nem às ostras, e nem às baratas-de-praia, quando me disseram que você não voltaria.

Na verdade, indo um tanto quanto mais fundo, a idealização da espera não tem tanta relação com você, que, inclusive, nem fazia idéia do que realmente era a existência da mesma. A minha espera foi sempre muito mais marcada de mim mesmo.

E, pensando bem, nada me custa, e muito menos me impede, de ver a causa do fim assim: eu humano, você sereia; mundos diferentes e, portanto, incompatíveis. Uma visão muito mais simples, bonita e sem deixar de ser, contudo, a mais pura verdade. Afinal, o que nos separou foi mesmo a sua cauda.

Se você já se casou, eu não tenho mesmo como saber, Whatsername. Nem como você tem passado. Há apenas o rosto dela, o seu corte de cabelo curtíssimo, os olhos meio puxados quando sorri, o sorriso despojado e a rojada de incertezas que este sempre me traz. Tudo muito devidamente, perfeitamente ao contrário de você, e não tinha como ser de outra maneira. Como eu já disse, não é ela, e sim o que representa.

Eu não vou te enviar essa carta, Princesa, como já é de praxe. Mas é tudo sem dúvida muito mais belo assim, e essa beleza é comprovadamente do tipo que mereceria o baú mais bem protegido e caro, de preferência, todo coberto de pérolas negras, vigiado pelo maior número de homens (os mais bem pagos para executarem decentemente a sua função de guardas) e com o maior número de chaves secretas e não-secretas. Afinal, os tais oito meses já se passaram, e olha eu aqui, na mesma bancada de madeira, escrevendo. Alguns espelhos, perfumes e fotografias arrumados de forma diferente, mas eu ainda estou aqui. Acho que isso prova que eu não previ as coisas de uma maneira tão errada, afinal. Acontece que eu acabo sempre voltando aos oito meses, toda a densidade em forma de condensação que a eles pertence. Quer dizer, não que eu precise da ciência e das suas razões em reações químicas perfeitamente explicáveis esse tipo de período de tempo tão cuidadosamente determinável, você bem sabe que eu nunca precisei de nada disso. E é justamente por isso, Ana, que eu resolvi juntar todos os pedaços restantes de mim e de meu corpo, fazendo, da forma mais comum possível (pra não perder o costume) juz a tudo o que eu já tanto desconjurei, dizendo-lhe, mais uma vez. No fundo, bem sei, e você não precisa me dizer, esse meu ato não passa de mais uma manifestação precisa dessa minha mania desconjuntada de querer me redimir comigo mesmo, e talvez nada mais. Quer dizer, talvez eu também queira, com isso, finalmente poder catar os meus olhos, podendo, então, voltar a fazer deles o que eu bem entender. Espero que não se importe de eu usar de clichês... Mas que bobagem a minha! Bem sei que a gente nunca se importou, de fato. Bom, o que quero dizer, enfim, ao vento-você: Eu te amo. Muito. Mesmo. Sempre.

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